terça-feira, 15 de setembro de 2026

FANATISMO, BREVES CONSIDERAÇÕES

FANATISMO, BREVES CONSIDERAÇÕES Por Jacob Fortes de Carvalho — 12.09.2026 O fanatismo é tema dos mais correntes no debate contemporâneo. Mas, afinal, em que consiste o fanatismo? Fanatismo é a adesão passional a uma causa. Por outras palavras, é a devoção obsessiva a uma pessoa, a uma ideia ou a uma doutrina. O fanatismo tolhe, no fanático, o exercício da capacidade crítica. Enquanto o herói é capaz de gestos de sacrifício, movido pela lucidez e pela grandeza d’alma, o fanático pode entregar-se apaixonadamente a uma causa, ainda que perdida, mesmo que isso lhe custe a própria destruição. Quando o fanatismo assume dimensões coletivas, pode arrastar um povo inteiro aos mais impensáveis desvarios. Exemplo extremo disso foi o suicídio coletivo ocorrido em Jonestown, na Guiana, comunidade criada pelo movimento religioso Templo do Povo, liderado pelo americano Jim Jones. O fanático, autêntico fabricador de deuses, é capaz de produzir as condutas mais despropositadas. Mas, por achar-se sob o torpor de suas convicções cegas, não tem consciência dos seus despropósitos. Enquanto as pessoas sensatas mantêm suas preferências de modo comedido e racional, o fanático, como se cumprisse uma penitência, não se cansa de exaltar o objeto de seu fanatismo. Mesmo quando o objeto de seu fanatismo cai em visível descrédito, o fanático insiste em construir muralhas ao redor das suas convicções. Às vezes, as correntes que nos impedem de ser livres são mais mentais do que físicas. Amarre-se um cavalo a uma cadeira plástica de criança, e ali ele permanecerá até morrer de fome e sede, convencido de que se encontra atado a um mourão de aroeira por um cabresto de relho trançado. Para o fanático, afinal, pouco importam as provas capazes de abalar os esteios de suas convicções; importa-lhe, acima de tudo, mantê-las firmes, ainda que o edifício do fanatismo ameace ruir. O fanatismo demonstra como um fervor doentio pode impedir a colheita dos frutos da dúvida salvadora. A resistência do fanático em enxergar a realidade não decorre da falta de luz, mas da decisão de fechar os olhos diante dela. Para o fanático, as verdades irrefutáveis, além de lhe causarem angústia, todas lhe parecem falsas. O fanatismo, aliás, faz lembrar a cegueira do fumante: os olhos veem os malefícios do vício, mas a mente rejeita essa realidade. Uma mente fechada é como um cofre trancado: guarda zelosamente velhas bijuterias que querem se passar por ouro, mas não permite a entrada da verdadeira joia — a verdade, sem maquiagem. Enfim, o cego não pode ver; o fanático não quer. O fanatismo encontra solo fértil nos baixos níveis de desenvolvimento, a bem dizer, nas regiões subdesenvolvidas, onde a capacidade crítica é mais escassa. O filósofo iluminista francês Voltaire (1694–1778), em seu Tratado sobre a Tolerância, mostra como a verdade pode perder sua força diante de mentes aprisionadas pelo dogmatismo. Mostrar a razão a um fanático é, muitas vezes, como oferecer luz a quem se habituou à escuridão. O filósofo prussiano Immanuel Kant (1724–1804) associa o fanatismo a uma espécie de cegueira mental. Em Ensaio sobre a Cegueira, o escritor português José Saramago (1922–2010) nos conduz à ideia de que nem sempre a cegueira está nos olhos. O fanático é um exemplo disso: vê a realidade, mas se recusa a reconhecê-la. O escritor israelense Amós Oz (1939–2018), em Uma História de Amor e Trevas, oferece a ideia do fanatismo como escudo que protege a identidade do fanático. O escritor francês Étienne de La Boétie (1530–1563), em seu Discurso da Servidão Voluntária, sustenta que os tiranos só governam porque os escravos, o povo, lhes empresta as mãos. Por aplicação analógica, pode-se dizer que o fanático não poderá ser libertado pela luz, pois, à semelhança do escravo de La Boétie, permanece voluntariamente nas trevas de suas convicções. A. J. Tibério, no poema que segue, traduz em versos a inutilidade dos argumentos diante de quem deliberadamente cerra as portas da razão: “Nada valem razões ao bronco peito/Quando a treva faz da mente habitação/Mil argumentos jamais terão efeito/A quem faz da estupidez religião. ”

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