segunda-feira, 20 de novembro de 2017

A ARTE DE OUVIR

REFLEXÕES SOBRE A ARTE DE OUVIR

Um dos maiores problemas de comunicação, tanto a de massas como a interpessoal, é o de como o receptor, ou seja, o outro, ouve o que o emissor, ou seja, a pessoa, falou.

Numa mesma cena de telenovela, notícia de telejornal ou num simples papo ou discussão, observo que a mesma frase permite diferentes níveis de entendimento.

Na conversação dá-se o mesmo. Raras, raríssimas, são as pessoas que procuram ouvir exatamente o que a outra está dizendo.

Diante desse quadro venho desenvolvendo uma série de observações e, como ando bastante entusiasmado com a formulação delas, divido-as com o competente eleitorado que, por certo, me ajudará, passando-me as pesquisas que tenha a respeito.

Observe que:

1. Em geral o receptor não ouve o que o outro fala: ele ouve o que o outro não está dizendo.

2. O receptor não ouve o que o outro fala: ele ouve o que quer ouvir.

3. O receptor não ouve o que o outro fala: ele ouve o que já escutara antes e coloca o que o outro está falando naquilo que se acostumou a ouvir.

4. O receptor não ouve o que o outro fala: ele ouve o que imagina que o outro ia falar.

5. Numa discussão, em geral, os discutidores não ouvem o que o outro está falando: eles ouvem quase que só o que estão pensando para dizer em seguida.

6. O receptor não ouve o que o outro fala: ouve o que gostaria ou de ouvir ou que o outro dissesse.

7. A pessoa não ouve o que a outra fala: ela apenas ouve o que está sentindo.

8. A pessoa não ouve o que a outra fala: ela ouve o que já pensava a respeito daquilo que a outra está falando.

9. A pessoa não ouve o que a outra está falando: ela retira da fala da outra apenas as partes que tenham a ver com ela e a emocionem, agradem ou molestem.

10. A pessoa não ouve o que a outra está falando: ouve o que confirme ou rejeite o seu próprio pensamento. Vale dizer, ela transforma o que a outra está falando em objeto de concordância ou discordância.

11. A pessoa não ouve o que a outra está falando: ouve o que possa se adaptar ao impulso do amor, raiva ou ódio que já sentia pela outra.

12. A pessoa não ouve o que a outra fala: ouve da fala dela apenas aqueles pontos que possam fazer sentido para as ideias e pontos de vista que, no momento, a estejam influenciando ou tocando mais diretamente.

Esses doze pontos mostram como é raro e difícil conversar. Como é raro e difícil se comunicar! O que há, em geral, ou são monólogos simultâneos trocados à guisa de conversa, ou são monólogos paralelos, à guisa de diálogo. O próprio diálogo pode haver sem que necessariamente haja comunicação. Pode até haver um conhecimento a dois, sem que, necessariamente, haja comunicação. Esta só se dá quando ambos os polos ouvem-se, não, é claro, no sentido material de ”escutar”,  mas no sentido de “procurar compreender”, em sua extensão e profundidade, o que o outro está dizendo.

Ouvir, portanto, é muito raro. É necessário limpar a mente de todos os ruídos e interferências do próprio pensamento durante a fala alheia.

Ouvir implica numa entrega ao outro, numa diluição nele. Daí a dificuldade de as pessoas inteligentes efetivamente ouvirem. A sua inteligência em funcionamento permanente, o seu hábito de pensar, avaliar, julgar e analisar tudo interfere como um ruído na plena recepção daquilo que o outro está falando.

Não é só a inteligência a atrapalhar a plena audiência. Outros elementos perturbam o ato de ouvir. Um deles é o mecanismo de defesa. Há pessoas que se defendem de ouvir o que as outras estão dizendo, por verdadeiro pavor inconsciente de se perderem de si mesmas. Elas precisam “não ouvir” porque “não ouvindo” livram-se da retificação dos próprios pontos de vista, da aceitação de realidades diferentes das próprias, de verdades idem e assim por diante. Livram-se do novo, que é saúde, mas as apavora. Não ouvir é, pois, um sólido mecanismo de defesa.

Ouvir é um grande desafio. Desafio de abertura interior; de impulso na direção do próximo, de comunhão com ele, de aceitação dele como é e como pensa. Ouvir é proeza. Ouvir é raridade. Ouvir é ato de sabedoria.

Depois que a pessoa aprende a ouvir, ela passa a fazer descobertas incríveis escondidas ou patentes em tudo aquilo que os outros estão dizendo a propósito de falar.

Artur da Távola

"Quem responde antes de ouvir, comete insensatez e passa vergonha" - Provérbios 18:13

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

O Valor das anotações - Pão comido não é lembrado!

      Este artigo tem como objetivo mostrar como somos falhos, esquecidos e capazes de cometer terríveis equívocos.
      Certa vez um rapaz se viu numa situação embaraçosa e constrangedora, pois na época cuidava da conta de poupança de uma Senhora idosa, tendo sido nomeado pela mesma para controlar as saídas e entradas de dinheiro. Apesar de ter sido nomeado, deixava o cartão da conta e a senha junto com os documentos da mesma em sua casa.

      Passou o tempo, talvez quatro ou cinco anos.... UM DIA... Três parentes daquela senhora, O colocaram na sala da casa, na presença daquela senhora e o questionaram:

- Ocorreu um saque de Cr$ 10.000,00(Dez mil cruzeiros) na Conta, para o que foi este dinheiro? Você deve nos prestar conta, diga-nos o que ocorreu?
- Pego de surpresa ficou constrangido, pois não se lembrava daquele saque;  Respondeu que não sabia; A Pressão continuou, pois como responsável deveria dar conta do sumiço daquela quantia;
- Ficando muito constrangido e envergonhado, pois não se lembrava de nada! Depois de um tempo de pressão e de olhares condenativos e desconfiados; Andou para lá e para cá tentando achar uma saída ou se lembrar, mas nada!  Estava sendo visto como um 171 da vez!
- Muito constrangido, resolveu pegar os extratos da conta e verificar se havia alguma anotação, pois sendo criterioso, era seu costume fazer anotações; Verificando os extratos, no cantinho estava escrito: "Dinheiro usado para comprar o carro X", emprestado ao fulano;
- se lembrou de imediato da referida compra e da transação bancária; Pôde então se explicar e tirar seu nome da vergonha eterna que carregaria daquele dia em diante, livrado no momento certo, por aquela bendita anotação, feita anos antes. Penso que até hoje alguém o constrangeria e perguntaria: 
- Onde estão os Cr$ 10.000,00 da velha que você deu o sumiço?
- Você devolveu o dinheiro da velha?
- Malandro hein! não deixa de tirar uma casquinha!
- Você tem que devolver o dinheiro, ok?

      O Que ocorre é que se não tivesse provado o destino do dinheiro, teria que repor o desfalque, pagando por aquele dinheiro que ninguém sabia o destino; contudo, como era sistemático, provavelmente teria pegado do seu próprio bolso e coberto a quantia. Mesmo assim, ainda pairaria uma dúvida quanto a honestidade do rapaz, pois repusera depois de ter sido supostamente descoberto.  

      Outro detalhe interessante é que as três pessoas que queriam saber o destino da quantia, eram as mesmas que a haviam sacado, numa transação de carro entre elas, com a anuência e participação da referida Senhora.

      Outro detalhe é que a senhora ou elas, as responsáveis pela façanha, nem se lembravam da transação e nem do saque! Agora o rapaz teria que dar conta do dinheiro! Imagina?

Como ocorreu a anotação:

      O Rapaz estava sempre indo a casa desta senhora, parente por sinal, e quando chegava lá, dava uma olhada e checava os extratos que chegavam pelo correio... à época, percebeu este saque e estranhando perguntou para a Senhora:

-  Tiraram Cr$ 10.000,00, da conta... quem fez isto?

 - Ela respondeu de pronto: Foi o dinheiro usado para comprar o carro que fica aqui em casa.

      Foi um negócio entre as filhas da referida senhora.  Inclusive citou que elas a haviam levado a agência bancaria para efetuar o saque. O Rapaz, precavido, não deixou de anotar o ocorrido naquele mesmo momento! Graças a Deus fez isto! Pois ele também havia esquecido por completo e todas elas também!  E a culpa seria de quem? Se não tivesse feito a anotação?

FATO LOUVÁVEL : Os envolvidos reconheceram ter errado!