domingo, 20 de dezembro de 2009

E O Cavalo disparou....



O Cavalo disparou.....

“A vida faz de nós o que quer, e tudo que conseguimos é nos sustentar da melhor maneira possível em meio aos solavancos” – Gordon Levingston

Eram meados de 1963/1964 – Formosa/GO .

O cavalo era muito ágil e puxava a carroça com agilidade e força. Atendia os comandos de rédea imediatamente. Ao chicote nem se fala! Ao estalido do mesmo o pequeno potrinho voava puxando aquela carroça de pneus finos e molas; era uma carroça nova, com assentos nas laterais logo acima das rodas; tinha a cor verde. Quando queríamos colocávamos um banco atravessando o meio preso nas grades laterais , no sentido dos eixos. Era um excelente meio de transporte, e ainda mais , ótimo carro para um menino leiteiro se exibir pelas ruas da minha cidade!

Muitas vezes me pararam perguntando se eu queria Cr$ 20.0000,00(vinte mil cruzeiros) pelo animal , pois passava com aquele lindo potrinho puxando velozmente a minha carroça em frente a rodoviária da cidade, onde as charretes-táxis ficavam estacionadas aguardando os passageiros que chegavam nas jardineiras que agora começavam a chamar de ônibus .

Este potrinho ainda não era bem manso, ficava às vezes muito agitado e tinha que ter força de mão e destreza para controlá-lo e evitar acidentes.

Lembro-me de certo dia, depois de entregar o leite pelas ruas da cidade , fui à chácara onde ficava o gado, ajudei a dar a ração, apartei (separei os bezerros das vacas), coloquei-os em pastos separados, pois a partir das 17:00 horas de cada dia os bezerros não mamavam mais, para que no outro dia bem cedo fosse feita uma farta ordenha.

Após este trabalho voltava para casa de meus pais na cidade, perto da qual tinha um pastinho dormitório para os cavalos que seriam usados no trabalho logo cedo no dia seguinte.

Numa destas, após um dia de trabalho, todo suado, o potrinho estava ansioso para beber água, pastar e descansar naquele pastinho dormitório, no meio do qual passava um regato de águas cristalinas e não poluídas.

Cheguei em casa, onde deixaria a carroça, desatrelei-o, ele estava ansioso, mal podendo esperar a hora de ir para o pastinho, mal imaginava eu o que aconteceria!

Deixei o potrinho em pelo, tirei o freio deixando-o só de cabresto. Montei no animalzinho, em pêlo, suado, escorregadio e espoleta. Mal acabei de montar ele saiu em disparada! Tentei pará-lo usando o cabresto, em vão; o chão de cascalho batido pelo passar dos carros, estava coberto de pedrinhas, tornando uma derrapagem ou escorregão muito fácil. Na primeira curva a direita, penso que escapei porque ele ainda não estava desenvolvendo a velocidade que ansiava.

Depois veio uma ladeira bem reta de mais ou menos uns quinhentos metros, pela qual ele voava pegando embalo para subir os outros quinhentos metros apostos a decida, que de passagem tinha um ponte entre a descida e a subida.

O pânico tomou conta de mim, pois após aquela subida havia uma curva de 90 graus a direita, com todo aquele cascalho batido, coberto com aquela farinha de pedregulhos solta na superfície. Pensei é ali que vou me esfolar todo! Há se sair vivo desta! com certeza o bichinho derraparia naquela curva fatal!!

Pensei !

Bom! É curva! ele vai diminuir a velocidade!

Em vão! ele corria mais velozmente, sem se preocupar com o cascalho solto da curva... para ele, tudo eram nuvens.... afinal ele estava indo para o paraíso, que era o sonhado pastinho com relva verdinha e água cristalinas...E eu! Indo para o terror de uma curva fatal... terrível... tentei fazer com que ele diminuísse a velocidade puxando o cabresto e dando comando verbais de calma; Inútil! ele estava na sua velocidade máxima e a curva chegou.... Segurei-me na crina com todas forças e aderi meu corpo ao pelo suado e escorregadio, preparei –me para a curva acompanhando o veloz guinar do animal, inclinando-me levemente para a direita. Pelo que percebi ele não diminuiu a velocidade e nem derrapou, venceu aquela curva como se fosse uma curva feita por um balão de festa quando escapa se esvaziando e parou na frente da porteira do ansiado pastinho, paraíso!

Pensei! Este percurso nestas condições! jamais!

Abri a porteira, com as mãos e pernas tremendo; soltei-o, entrou no pasto, todo se sacudindo e feliz; afinal adentrara no sonhado paraíso!

Penso que foi um dos meus maiores sustos...

Susto! Tudo acontece de repente. Quando da juventude não percebemos os riscos que corremos em atitudes corriqueiras. Eu não sabia que cavalos recém amansados tinham este costume de disparar.

" Tem misericórdia de mim, ó Deus, tem misericórdia, pois em ti procuro segurança! Na sombra das tuas asas eu encontro proteção até que passe o perigo." Salmo 57:1

Francisco Alberto



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